AMIGOS de ANDRÉ MUSTAFÁ

segunda-feira, 9 de abril de 2018

REFLEXÕES E PARALELOS DO TRABALHO ARTE PEDAGÓGICO DE ANDRÉ MUSTAFÁ SOBRE O MÉTODO DE TRABALHO DE ANTON MAKARENKO

O mestre ucraniano Anton Makarenko concebeu um modelo de escola baseado na vida em grupo, na autogestão, no trabalho e na disciplina que contribuiu para a recuperação de jovens infratores. Imagine um educador que tem como missão dirigir um colégio interno (na zona rural) cheio de crianças e jovens infratores, muitos órfãos, que mal sabiam ler e escrever, numa época em que o modelo de escola e de sociedade estavam em xeque. 


Como educar? Por onde começar? Anton Semionovich Makarenko, professor na Ucrânia, país do leste europeu que era parte da União Soviética na época, foi um dos homens que ajudaram a responder a essas questões e a repensar o papel da escola e da família na recém-criada sociedade comunista, no início do século 20. Sua pedagogia tornou-se conhecida por transformar centenas de crianças e adolescentes marginalizados em cidadãos.

O método criado por ele era uma novidade porque organizava a escola como coletividade e levava em conta os sentimentos dos alunos na busca pela felicidade aliás, um conceito que só teria sentido se fosse para todos. O que importava eram os interesses da comunidade e a criança tinha privilégios impensáveis na época, como opinar e discutir suas necessidades no universo escolar. 

"Foi a primeira vez que a infância foi encarada com respeito e direitos", diz Cecília da Silveira Luedemann, educadora e autora do livro Anton Makarenko, Vida e Obra A Pedagogia na Revolução.



Mais que educar, com rigidez e disciplina, ele quis formar personalidades, criar pessoas conscientes de seu papel político, cultas, sadias e que se tornassem trabalhadores preocupados com o bem-estar do grupo, ou seja, solidários. Na sociedade socialista de então, o trabalho era considerado essencial para a formação do homem, não apenas um valor econômico. Makarenko aprendeu tudo na prática, na base de acertos e erros, primeiro na escola da Colônia Gorki e, em seguida, na Comuna Dzerjinski. Cada etapa de suas experiências foi registrada em relatórios, textos e livros. As dificuldades e os desafios têm muitos paralelos com os dos professores de hoje. A saída encontrada há quase um século correspondia às necessidades da época, mas servem de reflexão para buscar soluções atuais e entender a educação no mundo.


Proteger a infância

A idéia do coletivo surge como respeito a cada aluno, oposta à visão de massificação que despersonaliza a criança. O grupo estimula o desenvolvimento individual. Como a instituição familiar (e tudo o mais na então União Soviética) estava em crise, essa foi a alternativa encontrada pelo educador para proteger a infância de seu país. O sentimento de grupo não era uma idéia abstrata. Tinha raízes nos ideais revolucionários e Makarenko soube como transformá-la em algo concreto. A colônia era auto-suficiente e a sobrevivência de cada um dependia do trabalho de todos. Caso contrário, não haveria comida nem condições de habitação aceitáveis.



Valorizar a disciplina

Para que a vida em comunidade desse certo, era essencial que cada aluno tivesse claras suas responsabilidades. "Nunca mais ladrões nem mendigos: somos os dirigentes." Makarenko era conhecido como um educador aberto, mas rígido e duro. Ele acreditava que o planejamento e o cumprimento das metas estabelecidas por todos só se concretizariam com uma direção muito firme. Por isso, os alunos tinham consciência de que a disciplina não era um fim, mas um meio para o sucesso da vida na escola. O descumprimento de uma norma podia ser punido severamente, desde que alunos e professores assim o desejassem, depois de muita discussão.


Envolver a família

Makarenko publicou em 1938, incompleto, o Livro dos Pais. O objetivo era mostrar a importância da participação da família na escola e como educar as crianças em tempos difíceis. Alguns estudantes moravam nas escolas dirigidas por ele. O educador ucraniano fazia questão da presença dos pais, que eram estimulados a participar de atividades culturais e recreativas. A escola tinha o papel de orientar a família, que deveria encará-la como um órgão normativo. Pais muito "melosos" ou ausentes seriam incapazes de educar uma pessoa forte, madura e inteligente. "O carinho, como o jogo e a comida, exige certa dosagem", dizia.


Makarenko na escola: o aluno ganha voz
Makarenko queria formar crianças capazes de dirigir a própria vida no presente e a vida do país no futuro. 


Atividades culturais 

Exercícios físicos, trabalhos manuais, recreação, excursões, aulas de música e idas ao teatro faziam parte da rotina. A escola tinha que permitir o contato com a sociedade e com a natureza, ou seja, ser um lugar para o jovem viver a realidade concreta e participar das decisões sociais. O estudo do meio já era comum na escola de Makarenko, ainda que sem esse nome. Na Colônia Gorki, meninos e meninas eram divididos em grupos de dez, de diferentes faixas etárias. Um representante de cada turma participava de assembleias e reuniões em que se discutiam as situações da escola: um objeto roubado, a melhoria do prédio, a compra de materiais, a limpeza dos banheiros, os problemas particulares. Sexo e namoro também tinham espaço nas reuniões. Normas e decisões não podiam ser predeterminadas. O primeiro e o último voto eram sempre dos alunos.


O QUE PODEMOS DIZER SOBRE O TRABALHO DE CULTURA DESENVOLVIDO POR ANTON MAKARENKO E SUAS CRIANÇAS E ADOLESCENTES?



sexta-feira, 30 de março de 2018

A ARTE PENSANDO PRATICAS AFRO-BRASILEIRA PARA ADOLESCENTES

O ensino da história e cultura afro-brasileira e africana no Brasil sempre foi lembrado nas aulas de História com o tema da escravidão negra africana. A Lei 10.639/03, alterada pela Lei 11.645/08, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas, públicas e particulares, do ensino fundamental até o ensino médio. Mas a questão é como fazer isso com os alunos se os professores não tem referências, bases solidas, que não estejam cheias de pre-conceitos de orientadores empobrecidos ou cartilhas taxativas sobre cultura afro-brasileira. Esse é uma questão. Não se pode despertar nos alunos ou educandos se os professores não estão despertos! Acordados e cientes da importância.


 A segunda coisa é como fazer esse despertar com arte!? Segundo (DEWEY, 1979) trabalhar através de vivências em Arte Educação pode-se acrescentar o repertório cultural e identitário dos alunos no espaço educacional. Para John Dewey, a compreensão da experiência estética verdadeira passa pela consideração de seu "estado bruto" quanto às formas de ver e ouvir como geradoras de atenção e interesse, e que podem ocorrer (por exemplo) tanto a uma dona de casa regando as plantas do jardim quanto a alguém que observa as chamas crepitantes em uma lareira. A arte se faz necessária, prazerosa e desejante. Esse prazer e a satisfação envolvidos nesta experiência, cujo impulso é dado pelo próprio contexto no qual se insere o indivíduo é preciso ser considerado.

Dewey chama a atenção para a possibilidade de se considerar que, nas sociedades antigas, as "artes do drama, da música, da pintura e da arquitetura" não eram manifestações que habitavam teatros, galerias e museus. Antes, participavam da vida coletiva, ligando-se organicamente umas às outras - a pintura e a escultura com a arquitetura, por exemplo, a música e o canto com os ritos e cerimônias da vida de determinado grupo. Então temos uma outra questão para aglutinar-se a primeira: Como a Arte pode criar dispositivos sensoriais que ajudem a uma fruição criativa e critica na vida de crianças, adolescentes e adultos brasileiros (especificamente) em uma espaço como a ESCOLA que mais parecem presídios? E mais como então pensarmos a escola do século XXI?




Com vasta experiência em arquitetura educacional e ambientes para aprendizagem, Frank Locker afirma que estamos nos limitando a replicar, literalmente, o modelo espacial das prisões, sem interesse algum em estimular uma formação integral, flexível e versátil. A comparação com a prisão não é exagero. "Com que espaço você relacionaria uma fila de salões de porta fechada com um corredor no qual não se pode estar sem permissão e um sinal sonoro que ordena entrar, sair, terminar ou começar as aulas?", questiona Locker. Então, em plena era da informação (mais correto do que falar de uma era do conhecimento), os cidadãos exigem diferentes mudanças nos seus modelos educativos e em diferentes velocidades para diferentes sociedades e idiossincrasias. Locker adverte que "em algumas culturas espera-se que se tenha medo do professor e este tipo de infraestrutura contribui para apoiar essa filosofia pedagógica"


De fato não estava errado no inicio desse artigo quando mencionava professores, mal preparados e desestimulados. Agora temos (e isso é em quase todo o mundo) o regime e filosofia ditatorial e autoritária sendo transmitida de forma silenciosa para nossas crianças e adolescentes (principalmente eles), criando muros entre professores e alunos ou educadores e educandos. Não é necessário indagar-se muito para respaldar essa ideia: relembremos a distribuição das mesas e cadeiras nos nossos colégios e o professor como fonte inatacável e impecável do conhecimento. Essa distribuição de mesas e cadeiras, uma na frente da outra só me faz acredita no mito da Caverna de Platão. O mito fala sobre prisioneiros (desde o nascimento) que vivem presos em correntes numa caverna e que passam todo tempo olhando para a parede do fundo que é iluminada pela luz gerada por uma fogueira. Nesta parede são projetadas sombras de estátuas representando pessoas, animais, plantas e objetos, mostrando cenas e situações do dia-a-dia. Os prisioneiros ficam dando nomes às imagens (sombras), analisando e julgando as situações. A escola atual é uma grande caverna.




Estamos no século XXI, em plena idade da informação e o professor deixa de ser o dono do conhecimento. Com novas gerações formadas e alimentadas através dos múltiplos canais que oferece a internet, seu papel deve ser o guia que facilita e orienta os alunos a criar seu próprio conhecimento. E claro, essa mudança de paradigma sobre o papel do professor possui repercussões espaciais. Locker reconhece: 


"Estes salões fechados (as escolas), retangulares e isolados funcionam muito bem para esta modalidade de aprendizagem, pouco afetiva para reter conhecimento. Além disso, está centrado no docente e não no estudante e não oferece aos alunos as habilidades que necessitam para sobreviver no mundo de hoje."

Então precisarei redefinir a pergunta que fiz no começo da material, pois o mundo está mudando muito rapidamente. Refazendo a pergunta: Como fazer a Arte retirar os alunos e ou educandos (crianças e adolescentes) de dentro dessas escolas prisões, ou espaços educativos aprisionados, ou arquitetura do desencanto para vivenciarem a cultura afro-brasileira (temática especifica desse artigo); mas que se pode introduzir "N" outras temáticas. Como fazer isso, pela Arte? Eu respondo meus queridos: É preciso mudar na grade curricular do MEC e levar nossas crianças e adolescentes para as ruas, vivenciar coisas, pessoas, espaços... até que as escolas percam as paredes. Mas isso me pareceu jovialmente utópico, retornemos então a Locker.

Locker postula que as escolas devem permitir a existência de uma comunidade, "que haja espaços para grupos de estudantes de várias idades, que em um mesmo lugar possam ser realizadas atividades simultâneas e que tenham ferramentas para facilitar a aprendizagem ativa", onde "os estudantes deixem de ser anônimos, evitando assim problemas de convivência. São lugares onde o diretor e os professores realmente conhecem seus alunos". As salas são de forma circular, tendo ferramentas para facilitar a aprendizagem ativa, por exemplo, móveis que favoreçam a colaboração entre alunos, com acesso a dispositivos móveis e laboratórios para projetos.

Estudantes deixando de ser ANÔNIMOS é o que a Arte precisa para mergulhar. Mas se ainda precisamos mergulhar nessa escola com arquiteturas de prisão e professores autoritários "tocando o terror na turma", como se faz importante a matéria Arte nas escolas? Estou me referindo na matéria Artes e não na disciplina Educação Artística. A arte é a forma mais pura de expressão humana e talvez por isso seja considerada Patrimônio Cultural da Humanidade. A arte é uma das expressões da manifestação cultural humana. Desde as pinturas rupestres, feitas nas cavernas por homens em eras pré-evolutivas, passando pelos jardins babilônicos; a arquitetura de grandes impérios, a pinturas e danças do extremo oriente. Já a educação artística é a transmissão de conhecimento que coloca o indivíduo em contato com a arte. Oferece assim, condições para que se possa interpretar, interagir e produzir arte e se inserir socialmente de maneira mais ampla.



Segundo as diretrizes regulares do Ministério da Educação, a educação artística fomenta que se desenvolvam o pensamento artístico e a percepção estética, de maneira que a experiência humana seja ordenada e haja sentido, a seu modo. O aluno, então, desenvolve seus sentidos, percepções e imaginação tanto na apreciação das artes, como no conhecimento das diferentes expressões em suas próprias produções artísticas e de seus colegas.

A arte é o que é produzido; a educação artística é o que é de fato ensinado. Os ensinamentos, a aprendizagem de técnicas, de conceitos, de cores, de materiais faz parte da educação artística. Os desenhos, os quadros, as esculturas de macarrão, os curtas-metragens, os quadrinhos, tudo isso é arte.

De uma maneira simplificada, se entende que: a educação artística é a transmissão do conhecimento sobre arte; a arte é o objeto, ou obra, ou forma que acabam sendo produzidos. Na aula de educação artística pode se fazer arte (ou só aprender sobre) e você pode fazer arte sem necessariamente passar por uma aula de educação artística.



Essa coisa de não precisar passar por aulas de educação artística é genial também, e é onde o Instituto Padre Haroldo abre espaço para o profissional Andre Mustafá e outros jovens artistas, arte-educadores e instrutores de arte pensarem a escola nova, que valoriza o que o ser humano já trás de sua bagem de vida emocional, estética e filosófica. De inter-relações fora da chamada sala de aula; em baixo de uma arvore, na calçada, em um corredor, dando um "rolê" pela cidade...O Instituto aposta também na cultura popular, no olhar e na visão popular daqueles que chegam pra nós, nos saberes das comunidades e dos mestres populares. 

Pode não parecer à primeira vista, mas o Instituto Padre Haroldo está buscando novas formas de se comunicar com os seus públicos e com o mundo espiritual e artístico, tem apostado bastante na contratação de artistas e arte-educadores para seu corpo de funcionário, com formações bem diversas que perpassam pelo teatro, dança, circo, percussionistas, músicos, artistas visuais e plásticos, mundo digital... E uma das pautas emergentes dentro e foram do Instituto, referente a afro-descendência tem sido pensada e articulada na rede da assistência (obviamente de forma ainda muito tímida),  mas que começa a criar um corpo e que vagarosamente vai circulando não somente nos programas com crianças e adolescentes do Instituto, mas envolvendo o espaço de reabilitação sensorial de nossos atendidos adictos. Esse caminha se deve boa parte aos arte-educadores junto a Lei Rouanet que vem abraçando e apoiando a causa do Instituto Padre Haroldo que só se transforma o mundo quando o mundo se reinventa e a reinvenção do mundo só é possível pela Arte e suas inúmeras sensibilidades.

Nossos adolescentes, crianças e adultos não participam de disciplinas e nem tão pouco vão para salas de aulas: estamos no Instituto Padre Haroldo promovendo com Esses o Encontro e é no Encontro que nós trocamos informações, dividimos saberes e sabores e nos divertimos... crescemos juntos... descobrimos juntos... estamos juntos tomando consciência do mundo ao nosso redor, pelas ferramentas que a arte nos oferece, de maneira a se expressar e permitir a vida plenamente. A arte, em certo aspecto, liberta os nossos atendidos, que não se habituam apenas a realidade de violência, mortes e miséria ou a falsa realidade de um mundo ideal que as drogas tenta revelar. A arte pode se desenvolver das maneiras mais simples, como a expressão corporal, o toque de tambores, da comida tipica... e pode fazer com que o aluno (ou atendido) tome a consciência do mundo no qual ele faz parte.

Mas não somente os educadores ou arte-educadores junto com seus "atendidos" precisam estar dispostos a mudanças através da Arte: é preciso que a Presidência do Instituto Padre Haroldo "detone" essa filosofia para outros funcionários e setores de dentro e fora do Instituto, até que reverbere novamente nas famílias (dos atendidos e dos funcionários), não pelas mãos dos artistas, educadores, arte-educadores e instrutores de arte que estão no "front" de batalha. Todos nós devemos nos comprometer a causas sociais emergentes; e uma dessas é as questões que envolve a cultura afro-brasileira. 

Quando essa TOMADA DE CONSCIÊNCIA acontecer nos nossos funcionários, famílias e atendidos (adultos adictos, crianças e adolescentes em vulnerabilidade), isso começa a tomar corpo e parceria com outras Instituições e aí sim iniciaremos a tocar afinadamente esse grande ensaio de orquestra. Cada um com seu instrumento. Daí teremos também (e não menos importante) a presença e o retorno saudável de antigos funcionários e atendidos como voluntários, conscientes dessa "marcha", que não é politica partidária, mas sim humana. O voluntariado consciente irá ajudar nessa tomada de consciência de outras juventudes necessitadas por ampliações estéticas, éticas e sinergéticas.


(Andre Mustafá, arte-educador no Instituto Padre Haroldo desde 2015 vestindo umas das camisetas pintadas pelos adolescentes atendidos nos serviços de Abrigo). 

domingo, 18 de março de 2018

MARCENARIA CRIATIVA com André Mustafá




O livro Educação: um Tesouro a Descobrir, sob a coordenação de Jacques Delors, aborda de forma bastante didática e com muita propriedade os quatro pilares de uma educação para o século XXI, associando-os e identificando-os com algumas máximas da Pedagogia prospectiva, e subsidia o trabalho de pessoas comprometidas a buscar uma educação de qualidade. Diz o texto na página 89: “À educação cabe fornecer, de algum modo, os mapas de um mundo complexo e constantemente agitado e, ao mesmo tempo, a bússola que permite navegar através dele”.





Segundo Delors, a prática pedagógica deve preocupar-se em desenvolver quatro aprendizagens fundamentais, que serão para cada indivíduo os pilares do conhecimento: aprender a conhecer indica o interesse, a abertura para o conhecimento, que verdadeiramente liberta da ignorância; aprender a fazer mostra a coragem de executar, de correr riscos, de errar mesmo na busca de acertar; aprender a conviver traz o desafio da convivência que apresenta o respeito a todos e o exercício de fraternidade como caminho do entendimento; e, finalmente, aprender a ser, que, talvez, seja o mais importante por explicitar o papel do cidadão e o objetivo de viver. Isso André Mustafá realiza em sua prática dentro do Instituto Padre Haroldo,junto com outros educadores e atendidos.




Os pilares são quatro, e os saberes e competências a se adquirir são apresentados, aparentemente, divididos. Essas quatro vias não podem, no entanto, dissociar-se por estarem imbricadas, constituindo interação com o fim único de uma formação holística do indivíduo.

Jacques Delors (1998) aponta como principal conseqüência da sociedade do conhecimento a necessidade de uma aprendizagem ao longo de toda vida, fundamentada em quatro pilares, que são, concomitantemente, do conhecimento e da formação continuada.

A seguir, é apresentada uma síntese dos quatro pilares para a educação no século XXI.


Aprender a conhecer – É necessário tornar prazeroso o ato de compreender, descobrir, construir e reconstruir o conhecimento para que não seja efêmero, para que se mantenha ao longo do tempo e para que valorize a curiosidade, a autonomia e a atenção permanentemente. É preciso também pensar o novo, reconstruir o velho e reinventar o pensar.



Aprender a fazer – Não basta preparar-se com cuidados para inserir-se no setor do trabalho. A rápida evolução por que passam as profissões pede que o indivíduo esteja apto a enfrentar novas situações de emprego e a trabalhar em equipe, desenvolvendo espírito cooperativo e de humildade na reelaboração conceitual e nas trocas, valores necessários ao trabalho coletivo. Ter iniciativa e intuição, gostar de uma certa dose de risco, saber comunicar-se e resolver conflitos e ser flexível. Aprender a fazer envolve uma série de técnicas a serem trabalhadas.



Aprender a conviver – No mundo atual, este é um importantíssimo aprendizado por ser valorizado quem aprende a viver com os outros, a compreendê-los, a desenvolver a percepção de interdependência, a administrar conflitos, a participar de projetos comuns, a ter prazer no esforço comum.


Aprender a ser – É importante desenvolver sensibilidade, sentido ético e estético, responsabilidade pessoal, pensamento autônomo e crítico, imaginação, criatividade, iniciativa e crescimento integral da pessoa em relação à inteligência. A aprendizagem precisa ser integral, não negligenciando nenhuma das potencialidades de cada indivíduo.


Com base nessa visão dos quatro pilares do conhecimento, pode-se prever grandes conseqüências na educação. O ensino-aprendizagem voltado apenas para a absorção de conhecimento e que tem sido objeto de preocupação constante de quem ensina deverá dar lugar ao ensinar a pensar, saber comunicar-se e pesquisar, ter raciocínio lógico, fazer sínteses e elaborações teóricas, ser independente e autônomo; enfim, ser socialmente competente.

Uma educação fundamentada nos quatro pilares acima elencados sugere alguns procedimentos didáticos que lhe seja condizente, como:
  • Relacionar o tema com a experiência do estudante e de outros personagens do contexto social;
  • Desenvolver a pedagogia da pergunta (Paulo Freire e Antonio Faundez, Por uma Pedagogia da Pergunta, Editora Paz e Terra, 1985);
  • Proporcionar uma relação dialógica com o estudante;
  • Envolver o estudante num processo que conduz a resultados, conclusões ou compromissos com a prática;
  • Oferecer um processo de auto-aprendizagem e co-responsabilidade no processo de aprendizagem;
  • Utilizar o jogo pedagógico com o princípio de construir o texto.


Conclusão

Presenciamos um momento muito importante em nosso país, o da demanda por educação, que, ao crescer, faz com que sociedade e instituições, em uníssono, movimentem-se no atendimento a essa urgência nacional. Essa é uma tarefa importante e é isso que se espera que o Brasil faça. Temos materiais e idéias. É preciso pôr em prática todos os estudos e projetos para a modernização da educação.

Para mudar nossa história e lograr conquistas, precisamos ousar em cortar as cordas que impedem o próprio crescimento, exercitar a cidadania plena, aprender a usar o poder da visão crítica, entender o contexto desse mundo, ser o ator da própria história, cultivar o sentimento de solidariedade, lutar por uma sociedade mais justa e solidária e, acima de tudo, acreditar sempre no poder transformador da educação.

Sugestão de leituras
DELORS, Jacques (Coord.). Os quatro pilares da educação. In: Educação: um tesouro a descobrir. São Paulo: Cortezo. p. 89-102.

FREIRE, Paulo; FAUNDEZ, Antonio. Por uma pedagogia da pergunta. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.



sábado, 17 de março de 2018

PROCESSOS CENOTÉCNICOS DO ESPETÁCULO ANDANÇAS



O Espetáculo ANDANÇAS foi realizado em novembro de 2017 no Teatro Castro Mendes em Campinas - SP Brasil com o patrocínio da Lei Rouanet e os atendidos (crianças, adolescentes e adultos), junto com a equipe de profissionais do Instituto Padre Haroldo deram cabo de uma proposta grandiosa. A direção geral foi de Antonio Carlos Heleno Vitório e a André Mustafá realizou a assistência de direção do Espetáculo. O espetáculo contou com outros profissionais como o musico e compositor Aurélio Artoli, o ator circense Rodrigo Senden, entre outros que com suas particularidades técnicas e artísticas contribuíram decisivamente para o resultado final. Todos esses profissionais estavam nesse referido ano contratados pelo Instituto Padre Haroldo e também realizaram atividades como professores junto os seus alunos adultos, adolescentes e crianças; atendidos do Instituto. 

Palco do Teatro Castro Mendes, a foto mostra montado os pedestais da orquestra sifoniana de campinas 


 O Espetáculo proporcionou aos atendidos do Instituto Padre Haroldo terem contato com  outros adolescentes, crianças e adultos dentro do Instituto (nos ensaios), o Evento oportunizou os profissionais se encontrarem para troca de idéias, técnologias e desejos para a afinação da "produto final"... alem disso no dia da apresentação todos os nossos atendidos te a oportunidade de observar, olhar e apreciar o prédio teatral, camarins, coxias, palco, bilheteria, maquinaria, cabine de som e luz... a equipe técnica afinando refletores, equalizando o som, retirando microfonia e microfonando atores. Isso gerou muita curiosidade para muitos proporcionando muitas perguntas diretamente aos profissionais criando um estreitamento nos laços entre técnicos, funcionários do teatro e tendidos. 

Apresentar-se em um teatro renomado como o Castro Mendes, em um palco amplo, ser iluminado, brilhar e ser visto pelos seus parentes e amigos do bairro faz todo o sentido para indivíduos e o grupos que pouco ou quase nada tem oportunidades em seus bairros de visibilidade. Essa ação do Espetáculo, desenvolver a auto-estima, empoderamentos e potencialidades, reconfigurando o individuo dentro de seus meios sociais. Isso tudo são metas do Instituto Padre Haroldo e que em um Espetáculo com dimensões como esse só poderão ser mensuradas, na vida de cada individuo desses, anos depois. Essa vivencia de participar de um espetáculo desperta sensações, emoções, desejos, ampliações de repertorio cognitivo e sonhos que aula nenhuma consegue ensinar.


Ensaios do espetáculo Andanças feito no auditório Loiyola dentro do Instituto Padre Haroldo

Um dos desafios da Direção foi ensaiar tanta gente junta e reunir crianças, adolescentes e adultos que de alguma forma não tinha contato direto e que queriam conversar, trocar idéias, ver suas cenas criadas e bater papo sobre suas ansiedades, angustias e desejos. Você imaginou o quanto de som foi produzido nesse espaço? Mas essa organização só foi possível, pois tivemos uma equipe também de captação e produção coordenada por Maria Beatriz Ribeiro, nossa generosa Beá que organizou para ensaios os lanches, os banheiros, bebedouros, ouviu os desejos e angustias de cada profissional e junto com a captação de Elaine Oliveira promoveu não somente para o Instituto e seus atendidos, mas sim um belo espetáculo para a Cidade de Campinas e moradores da região e periferias. No dia da apresentação, essa duplas e sua equipe, organizou diversos ônibus e vans para alem de pegar os atendidos que estiveram em cena, mas suas famílias, parentes e amigos dos bairros. Leva-los ao Teatro e retorna-los para seus lares. Foi uma mega produção e nós lotamos o Castro Mendes e isso se deve a essas duas moças e sua equipe que sem medo colocou os dois pés para fora do Instituto Padre Haroldo e deu a "cara a tapa". Sem medo de ser feliz, sem medo de errar, sem medo do medo. 

Desenhos feitos por André Mustafá para o storyboard do espetáculo Andanças.

Desenhos feitos por André Mustafá para o storyboard do espetáculo Andanças.

O Roteiro do espetáculo trata de dois andarilhos que vão de norte ao sul do País conhecendo suas manifestações culturas, como as danças gauchas, a capoeira, o frevo, maracatu... e vão podendo apreciar as coreografias, as cenas de teatro, os músicos, as peripécias dos personagens do circo e a banda cantando e tocando composições desse lugares, trazendo poéticas singulares... Tudo isso foi trabalhado com os adultos, crianças e adolescentes do Instituto Padre Haroldo com uma equipe de arte-educadores, assistentes sociais, psicologo, educadores sociais, pedagogos, coordenadores, equipe de limpeza, cozinha, motorista, porteiros... Em fim, durante um período aproximado de 8 meses, esses profissionais junto aos seus atendidos se dedicaram em corpo, alma e espirito e só quem participa de uma montagem que leva mais de 170 atores em cena entrando e saindo, mudando figurinos, retocando maquiagens, levando e trazendo adereços... sabe o que estamos falando. 
André Mustafá retocando um dos estandartes para o Espetáculo Andanças - 2017

Mas o que estaremos tratando nesse artigo não é exatamente sobre todo o Espetáculo, muito menos sobre o produto final: a apresentação publica no dia. Esse artigo não é uma critica sobre como foi o Evento. Aqui vamos falar de algumas partes do processo de construção do Espetáculo Andanças, basicamente o trabalho cenográfico, cenotécnico, figurinos, adereços e como tudo isso cria uma linguagem estética que foi desenvolvido pelo artista visual e arte-educador do Instituto Padre Haroldo, André Mustafá. Quais foram as suas contribuições e como superou as dificuldades de tempo, recursos e material humano para ajudar na confecção do que lhe foi incumbido a fazer pela direção. 


André Mustafá reformou o bumba-meu-boi do Instituto Padre Haroldo e dando os pequenos retoques e detalhes.


O trilho condutor desse artigo agora, trata-se do processo de criação visual e artística de André Mustafá para o espetáculo Andanças. Como os objetos cênicos foram produzidos por Mustafá, quem participou, quanto tempo para a realização até chegar no dia da apresentação horas antes no palco para a montagem junto aos cenotécnicos e equipe e por fim quem manipulou esses objetos em cena. São detalhes que as vezes só se detêm quem é da área técnica do teatro, cinema ou curiosos de plantão.


André Mustafá ao lado do estandarte que produziu para o espetáculo Andanças.

André Mustafá recebeu o convite para fazer parte da equipe de construção do espetáculo Andanças somente em setembro de 2017, depois de já ter se passado quase 5 meses de ensaios, reuniões de equipe e pre-produção. Foram se acumulando o cronograma de ações para a construção do espetáculo e a presidência do Instituto Padre Haroldo solicitou o envolvimento do profissional André Mustafá na modelagem final do Espetáculo, pois ele tinha feito a direção geral do espetáculo Abraços em 2016 e teria condições de auxiliar, junto a equipe, nas determinações estéticas do espetáculo Andanças. André Mustafá se envolveu no curto prazo que lhe foi dado e realizou o storyboard, a assistência de palco, a assistência de direção, a cenografia, os figurinos dos atores principais, a arte do cartaz e do folder, adereços e no dia da apresentação coordenou na cabine do teatro os profissionais de luz e som.

André Mustafá na esquerda da foto já segurando na rua um dos estandarte que criou e foram usados no Espetáculo Andanças. À direita Mustafá grafitando o estandarte do Centro-Oeste. 


Detalhes do trabalho plastico feito por André Mustafá para o espetáculo Andanças.

Detalhes de um dos estandartes feito por André Mustafá para o espetáculo Andanças.

A proposta estética do espetáculo precisava mostrar questões populares brasileiras e que deveriam casar com a linguagem do artista modernista, Alfredo Volpi, que foi um pintor ítalo-brasileiro considerado pela crítica como um dos mais importantes da segunda geração do modernismo, interagindo com essa miscelânea de cores que fundou nosso continente, com sua pluralidade cultural que o Espetáculo mostraria. Em todo o material plastico produzido por Mustafá foi considerado as entrelinhas do pensamento volpiano: a sequencia de traços iguais, que na obra de Volpi se materializavam em bandeirinhas (ou bandeirolas) de festas juninas e julinas brasileiras, surge o triangulo aberto de André Mustafá tanto nos estandartes como nos figurinos em uma sequencia continua e logica. Diferentemente de Volpi que em seus quadros ele não mistura muitas cores, Andre Mustafá (para criar uma logica) com as festas populares de cada região do Brasil, Ele recheou de cores seus objetos cênicos, estandartes e figurinos que daria contraste com a cenografia que se configurou bsicamente em tom azulado. Essa foi a proposta realizada junto ao diretor do Espetáculo.

André Mustafá, na quadra de esporte do Instituto Padre Haroldo construindo o cenário do espetáculo Andanças com as referências do trabalho do artista Volpi.


O dia do Espetáculo Andanças, observa-se ao fundo a cenografia volpiana e na direita da foto um dos estandartes realizados por André Mustafá, na cena que fala da Bahia e do Nordeste.

Essa sequencia de traços triangulares e rítmicos pode ser percebido também nos figurinos e na textura de fundo do cartaz e fôlder que trouxeram unidade tanto no material gráfico, como no material artístico. André Mustafá permaneceu durante três meses no atelier de arte do Instituto Padre Haroldo pesquisando formas, cores, texturas e volumes até chegar nesse material final, que foi apresentado ao publico. No caso dos figurinos dos atores principais, eles também receberão essa sequencia gráfica dos traços das pinturas de Volpi, mas em que intuíssem os atores a se movimentarem em cena de tal forma que desse a impressão que esses traços (que lembravam bandeirolas) pudessem criar vida e saltar do corpo dos mesmos em cena. Essa metáfora do "salto" foi o que provocou as pesquisas de André Mustafá para motivar os atores e dançarinos a se libertarem em cena e jogarem-se com o coração. 



Observa-se nos figurinos realizados por André Mustafá uma sequencia gráfica e quase triangular que criaram intimidade com a obra de Volpi e também com a cultura popular brasileira. 

Texturas indígenas e africanas que inspiraram também o trabalho de André Mustafá

Essa concepção rítmica que permeá o trabalho de Volpi e que segue em todo a cultura afro-indígena foi o start que Mustafá desenvolveu para falar de uma raiz brasileira. Assim o Espetáculo Andanças tem nas suas entrelinhas essas matrizes. É possível notar (para o publico mais atento) essa texturização até no logotipo criado por Mustafá para o titulo no cartaz.

Logotipo das letras com texturas rítmicas.







segunda-feira, 28 de novembro de 2016

II Festival Cultural da FEAC



DE ONDE ELES VIERAM?
Campinas nos agracia com um espetáculo vivo!!!



O casamento deu muito certo. O público no dia 23 de novembro, foi muito bem guiado e guiou os atores mirins no II Festival Cultural da FEAC - Federação das Entidades Assistenciais de Campinas. O Evento foi no Teatro do Shopping Iguatemi, área nobre de Campinas e reuniu diversas entidades assistências da Cidade e principalmente as famílias. Sim!!!! No horário nobre das 20:00 horas o teatro lotou de familiares que como no rito do teatro se prepararam desde suas casas para ver seus filhos, sobrinhos e parentes em cena. Em cena!!!! Vieram de longe, deixando o cansaço de lado e a comodidade das televisões para apostar nos resultados que a arte promove em suas vidas. E promoveu nitidamente.




O Espetáculo Flicts é uma adaptação do livro infantil ilustrado do escritor, desenhista e cartunista Ziraldo. Conta a história de uma cor “diferente”, que não consegue se encaixar no arco-íris, nas bandeiras e em lugar nenhum, e que ninguém, a princípio, reconhece seu merecido valor. Ao longo do espetáculo, Flicts vai se conformando que “não tinha a força do Vermelho, não tinha a imensidão do Amarelo, nem a paz que tem o Azul”. Contudo, o texto de Ziraldo presenteou o público uma fantástica mensagem de caráter e respeito, dando a entender que todas as pessoas por mais diferentes que sejam, possuem seu lugar no mundo.



A primeira boa impressão que tive, foi quando cheguei na porta do teatro: Muita gente bonita, de todas as idades, ainda esperando para adentrar no espaço lúdico, com ansiedade e expectativa. A FEAC fez milagre para acomodar tanta gente e acredito que ninguém ficou do lado de fora... Mas enfim os que se acomodaram foram presenteados com um espetáculo ímpar.

O Terceiro sinal do teatro não veio, o que entrou em cena, lá próximo do publico, em um proscênio intimo, sem barreiras, foi uma mestre de cerimônia, uma brincante, que trouxe concentração de cena com o seu carisma e brilho contando um conto e aumentando um ponto. Sem muitas firulas com linguagem que todos silenciaram as mentes e abriram os corações. Silencio, vai começar o espetáculo!!!
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Pontos fortes do espetáculo foi a musica que em muitos momentos tocada ao vivo pelas crianças e adolescentes deram um show a parte. Eles entremeavam instrumentos tradicionais como repiques, timbais, pandeiros, surdos, guitarra, flautas, derbakes, carrons e contra-baixo. Mesclando com a execução de uma percussão contemporânea em vasilhames, baldes e latas tendo influencia direta de grupos como o InglêsStomp. Apreciar crianças de 8 à 10 anos tocarem no ritmo foi o máximo: e olhem que estou falando de mais de quarenta crianças juntos ritmadas e se ouvindo. Coisa que muito adulto não desenvolveu essa capacidade de se ouvir... de se olhar. Foi um alimento pra alma. 

Sobre os figurinos e maquiagens fluía com leveza entre os corpos. Tudo parecia confortável para nossos jovens atores e atrizes que com dinâmica no espaço, equilibrando as entras e saídas de cena sem deixar o chamado “furo”, “vazio” entre uma cena e outra. Lindo mesmo!!! Meninos e meninas, crendo em suas falas, suas personagens, criando climas e espacialidades; sem o auxilio de marcações no chão com fita crepes ou fitas luminosas. Não sentíamos falta de um cenário. A dinâmica da movimentação criou muita luz e cor que tudo coloriu e matizava de guache.



Destaque para o trabalho de falas em uníssonos, que diga-se de passagem muito trabalhoso e que com certeza absoluta solicitou da equipe técnica e diretores de cena muitos ensaios. Não é fácil. Mas funcionou muito bem e aquelas crianças mais tímidas foram se ampliando e gostando de pisar no palco. O que de fato provocou nas crianças em cena? Nunca saberemos. O que essas crianças levam de bagagem para a vida que outras tantas não conseguiram perder o medo e zilhões de barreiras e subir no palco? auto-estima? Coragem!? Trabalho em equipe? Desejos e mais desejos... nunca saberemos. Mas uma coisa é certa. Foi despertado algo muito positivo.

Os pontos a melhorar, para não dizer que não tiveram, foi a luz caçando o menino em cena. A meninada deu um nó nos técnicos de luz. Alguns momentos deixavam a galerinha no escuro. Mas isso não retirou o brilho e luminosidade do todo. Em alguns momentos a luz não valorizava a encenação ou mudava bruscamente as intenções: o iluminador estava perdidinho e não ajudava os milhões de pais fotógrafos amadores com seus celulares que deixaram os cliques acabarem suas baterias a procura do melhor angulo. E alguns momentos bem pontuais a voz não se ouvia, mas não por falta de projeção dos pequenos artistas, mas pela comoção dos aplausos do publico que vibrava a cada momento com o time de cada piada ou fala embargada dos pequenos interpretes.



Editado no mesmo ano em que o homem foi à Lua pela primeira vez, Flicts é uma daquelas obras que resistem ao tempo, tal como a viagem de Neil Armstrong, que confirmou: “a lua é Flicts”. Flicts também encontra seu lugar: a Lua e nós, a platéia, nos unimos a Flicts em um sonho lunar.

(André Mustafá, diretor teatral e arte educador / atualmente presta serviços ao Instituto Padre Haroldo). E-mail: andreerenatta@gmail.com (zap 19.98185-7071)